Índices e iniciativas de sustentabilidade

A relevância dos índices e iniciativas de sustentabilidade para as empresas

As alterações climáticas não são apenas um problema ambiental. O clima está ligado a quase tudo o que fazemos como sociedade, e já revela ter um impacto nos negócios em todo o mundo. O mais recente relatório do World Economic Forum (WEF) demonstrou que as perceções de risco globais estão a mudar: enquanto nos anos anteriores os problemas económicos eram considerados as maiores ameaças à humanidade, a incerteza e os temores de um colapso climático agora estão a dominar.

Com esta mudança de mentalidades e a vontade de fazer face a estes problemas, é cada vez mais necessária uma reestruturação para alcançar uma economia e sociedade de baixo carbono, e as empresas desempenharão um papel importante na definição de caminhos de descarbonização, desenvolvendo soluções tecnológicas e alternativas para os tomadores de decisão e para a sociedade como um todo.

Assim, e à medida que o público aceita cada vez mais as alterações climáticas como um facto científico, as expectativas em relação à responsabilidade corporativa e à transparência tornam-se mais predominantes. As empresas sentem a necessidade de mostrar aos seus stakeholders (clientes, funcionários, investidores) que estão cientes das potenciais mudanças e a integrá-las nas suas estratégias de negócios, concentrando-se nas alterações a longo prazo rejeitando o conceito de “Business as Usual” e investindo na transformação contínua.  A comunicação pública, o interesse dos stakeholders, a transparência, a redução de custos, os requisitos legais e a perceção do impacto ambiental dos negócios são então algumas das razões pelas quais as empresas estão a medir e reportar mais informações relacionadas com sustentabilidade, e partindo desse princípio, iniciativas, índices e métricas de sustentabilidade são práticas comuns.   Um número crescente de frameworks e barómetros tem surgido, permitindo às empresas posicionarem-se e comunicarem publicamente a sua responsabilidade, os seus esforços e os seus compromissos para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela Organização das Nações Unidas e cumprir o Acordo de Paris.

Alguns exemplos de índices e iniciativas para as empresas incluem os Dow Jones Sustainability Indices (DJSI), lançados em 1999, uma família de índices que avaliam o desempenho de sustentabilidade de milhares de empresas que negoceiam publicamente. Constituem os benchmarks globais de sustentabilidade mais antigos do mundo e tornaram-se o ponto de referência no investimento em sustentabilidade para investidores e empresas. Baseando-se numa análise do desempenho económico, ambiental e social das empresas, avalia questões como governança corporativa, gestão de riscos, branding, mitigação das alterações climáticas, cadeia de valor e trabalho. A tendência é rejeitar empresas que não operem de maneira ética e sustentável, e inclui critérios gerais e de sustentabilidade específicos para cada um dos 60 setores definidos de acordo com o ICB (Industry Classification Benchmark).

O GRI (Global Reporting Initiative), fundado em 2001, incentiva também as empresas a medir e comunicar o seu desempenho e impactos em quatro dimensões (económica, ambiental, social e de governança) através das chamadas Normas GRI, as primeiras e mais amplamente adotadas normas globais para relatórios de sustentabilidade. Estes fatores ambientais, sociais e de governança (da sigla em inglês, ESG) são entendidos, cada vez mais, como fatores críticos de sucesso ou fracasso em todo o tipo de empresas e corporações. Da mesma forma, também os investidores começam a estar mais atentos aos fatores ESG, já que a sua incorporação nas decisões de investimento ajuda a gerir o risco e a gerar rendimentos de longo prazo mais sustentáveis.

O CDP (Carbon Disclosure Project), fundado em 2000, começou com o objetivo de incentivar as empresas a divulgar mais informações sobre sua exposição às alterações climáticas e já conta com uma metodologia de pontuação em que, a cada ano, recolhe as informações fornecidas no seu processo de reporte anual e classifica as empresas e cidades em termos de caminho rumo à liderança ambiental.

O SASB (Sustainability Accounting Standards Board) visa ajudar as empresas cotadas em bolsa a fornecer informações alinhadas com o relatório financeiro para os investidores nessas mesmas quatro dimensões. Também o TCDF (Task Force on Climate-related Financial Disclosures) permite aos utilizadores de informações financeiras avaliar melhor os riscos.

O UN Global Compact (UNGC) é uma iniciativa corporativa de sustentabilidade que impulsiona a mudança global, mobilizando empresas e stakeholders, criando consciencialização, alinhando estratégias e operações de apoio aos seus Dez Princípios sobre Direitos Humanos, Trabalho, Ambiente e Anticorrupção e incentivando ações para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030 e o Acordo de Paris. De acordo com esta iniciativa, a adesão pode ajudar as empresas a aumentar o desempenho financeiro, obter maiores pontuações ESG, aumentar o envolvimento dos stakeholders e melhorar a governança corporativa. Ao mesmo tempo, a empresa pode construir confiança e transparência, partilhando publicamente os seus compromissos e informar sobre o progresso, atingir os objetivos de sustentabilidade propostos, aumentar o seu conhecimento e experiência e alcançar crescimento a longo prazo.  Aderir ao UN Global Compact é um processo que engloba tanto descrever as ações planeadas, em desenvolvimento ou empreendidas, como relatar anualmente resultados dos indicadores de desempenho e como estes estão a ser medidos.

Os Science-Based Targets (SBT) baseiam-se no conceito de um orçamento global de carbono no qual as metas de redução de emissões estão alinhadas com a escala de reduções necessárias para manter os níveis de aquecimento global abaixo de 2°C. Assim, uma organização pode aumentar o seu nível de compromisso e estabelecer e alinhar as suas metas de redução à ambição de descarbonização da sociedade exigida pelo Acordo de Paris e ver que essa ambição e esforço são reconhecidos e validados pela Science-Based Targets Initiative (SBTi). Quando uma empresa decide definir o seu caminho futuro através de uma meta ambiciosa e de longo prazo baseada na ciência, isso imediatamente dá visibilidade, interna e externamente. Do ponto de vista da reputação, mostra robustez, confiança e credibilidade. Do ponto de vista da inovação, concentra esforços e estabelece um caminho claro para aproveitar os seus benefícios. Também ajuda a definir prioridades e permite que a empresa reconheça riscos mais facilmente.

As empresas que assumem compromissos mais fortes e alcançam resultados mais inovadores ou significativos podem também entrar para listas que as posicionem no mercado como líderes. O Global 100 – Most Sustainable Corporations in the World Indexé um ranking das empresas mais sustentáveis ​​do mundo e baseia-se no desempenho medido de 21 indicadores-chave quantitativos que abrangem temas como: energia, emissões de GEE, água, resíduos, inovação, remuneração, segurança, rotatividade, percentagem de mulheres em cargos executivos, entre outros.

O The Climate Group possui também diversas iniciativas globais.  Uma delas é o RE100, em parceria com o CDP, que reúne empresas que estabeleceram uma meta pública de obter 100% do seu consumo global de eletricidade a partir de fontes renováveis ​​até um ano especificado. O objetivo do RE100 é acelerar a mudança para redes de carbono zero à escala global. Também a iniciativa global EP100, em parceria com a Alliance to Save Energy, reúne um grupo de empresas empenhadas em melhorar a sua produtividade energética, impulsionar a inovação em eficiência energética e aumentar a competitividade, cumprindo as metas de redução de emissões. Já no setor dos transportes, a iniciativa EV100 reúne empresas que se comprometeram a acelerar a transição para veículos elétricos (da sigla em inglês EV) e em tornar o transporte elétrico o novo normal até 2030.

Em suma, ainda que incentivar uma divulgação ampla e abrangente sobre os riscos e oportunidades seja o objetivo principal, as empresas podem encontrar benefícios ao participar nestes processos pelo facto de medirem as suas emissões e implementarem mudanças, e não necessariamente pelo ato de divulgação. Empresas que medem os seus impactos tornam-se mais conscientes dos seus processos, reduzem custos ao torná-los mais eficientes, criam oportunidades de negócio, e capacitam-se para se converterem em empresas-modelo, ajudando a definir a liderança e inspirar um público mais amplo.

Adriana Rocha (Consultora na Get2C)