COP24 – Realismo vs ceticismo

Aqui na COP, estamos no costumeiro impasse do meio da segunda semana, quando os negociadores se entrincheiram nas suas posições, o Secretário-Geral apela ao consenso e dramatiza as consequências do impasse, e a negociação parece ser misteriosamente passada para corredores fora de vista e para altas esferas.

A dramatização vai aparecer e ela tem sentido: não conseguir um acordo de Katowice sobre o “livro de regras” do Acordo de Paris é efetivamente um desaire. Mas ainda assim não consigo estar particularmente abatido com essa expectativa. E isso, porque, ao contrário da minha vida prévia como negociador, hoje concentro—me mais sobre a ação que, em grande parte motivada por este processo, decorre contudo fora dele. Em Katowice e no espaço de um dia:

– Apresentei o roteiro nacional de neutralidade carbónica e recebi comentários elogiosos sobre o trabalho que Portugal tem vindo a fazer ao longo dos anos; ao mesmo tempo, revi que Portugal não está sozinho -há muitos países que estão já a reconsiderar as suas metas, mesmo sem acordo internacional. Fazem-no por questões éticas, mas sobretudo, porque é do seu interesse económico, industrial e social.

– O BERD, banco que durante anos financiou a recuperação da vetusta infraestrutura energética dos países da ex-União Soviética, anunciou com impacte imediato a suspensão do financiamento a todos os projetos de carvão e petróleo.

– Ao mesmo tempo, a MAERSK, líder no transporte de carga marítimo internacional, anunciou a sua intenção de ser neutro em carbono em 2050.

– Mais e mais países anunciam o fim dos seus investimentos em carvão e anunciam novas taxas de carbono ou mercados de emissões.

É assim possível resistir ao ambiente negativo que perpassa em algumas discussões, sobre o futuro do mercado de carbono (na semana em que o carbono europeu recupera e volta a valores acima de €20/tonelada). Não porque, como é obvio, um sinal negativo aqui não tenha impacte. Mas porque o mundo é hoje muito mais resiliente.

Pedro Martins Barata