Covid19 em Cabo Verde, na primeira pessoa – INOVContacto

Não tem sido uma experiência fácil aqui em Praia, e em parte nem se deve tanto à pandemia que, por enquanto, nos tem poupado a essas ansiedades. Afinal de contas estou em África, e tendo viajado por alguns sítios, este é substancialmente diferente. Acima de tudo nada corre como nós esperamos. Aprendemos isso muito depressa. Cada coisa tem o seu tempo, e nem tudo correu bem de início. É preciso baixar as nossas expectativas e esperar que as coisas se resolvam, com calma, com tempo.

Somos um grupo de cinco jovens, de todas as partes de Portugal, e durante sensivelmente uma semana vivemos os cinco na mesma casa. Hoje estou num apartamento com mais uma colega, a Mariana, numa rua (antes) agitada da capital.

O meu estágio consiste em estudar temas como a política climática internacional, nomeadamente de Cabo Verde, as implicações que o Acordo de Paris tem em Cabo Verde, assim como os principais temas relacionados com a mitigação e adaptação às alterações climáticas no país. Grande parte também das minhas funções passam por acompanhar a evolução dos mercados de carbono e a política climática dos PALOP. Algumas destas tarefas implicam uma presença e contato direto com pessoas que trabalham nas áreas.

Durante as primeiras duas semanas fiz uma vida normal: apanhar um táxi de manhã para o local de trabalho, que é longe e o calor não perdoa, caminhar 15 minutos para almoçar com os meus colegas e voltar para a parte da tarde. No final do dia, apanhar outro táxi para casa. Conheci aos poucos os meus colegas, e o funcionamento do meu local de trabalho. Todos os dias eram uma descoberta, uma pessoa nova, de um lugar novo, uma comida diferente. Passear ao fim de semana, ir a restaurantes, era o normal para nós os cinco. Um normal que durou pouco.

A partir de dia 16 de Março, a minha rotina mudou por completo, tendo recebido indicação para ficar em casa, apesar de a situação não ser nem de perto nem de longe semelhante à vivida por colegas meus na Europa (e ainda bem). Já não há táxis, nem idas para o trabalho, nem passeios, nem visitas frequentes aos amigos. É incrível, e não no sentido positivo.

Nestas duas semanas todas as minhas circunstâncias têm mudado. De três em três dias algo novo surge, e não quer dizer que seja aqui em Cabo Verde, ou comigo diretamente. Tem sido extremamente complicado conseguir separar a parte racional da emocional. Estou longe de casa, e decidi continuar a estar, mesmo com tudo a “desmoronar” à nossa volta. Ler e saber tudo o que se passa na Europa, e em Portugal parte-me o coração. Tenho frequentemente o coração nas mãos pelos meus familiares, porque muitos deles são profissionais de saúde e estão lá a dar o corpo às balas. Os meus pais estão lá também, os dois, e fica difícil. O que poderá acontecer?

Para além disso, tenho consciência do país onde estou a viver, o que não ajuda: primeiro porque sei que o apoio à saúde é pouco, comparativamente, e segundo, precisamente pelo apoio ser pouco, o sentido de responsabilidade é ainda maior. Não posso permitir que algo me aconteça. A todo o custo não posso ficar contaminada, porque há o receio do “e depois?”, e porque não vivo sozinha.

Hoje, a rotina é bem diferente. Acordo e muitas vezes fico a pensar se tudo isto é verdade, se não é um sonho qualquer. Sei que não, e há que continuar. Por nós, por quem vive connosco, pelos que estão lá na frente. Pela nossa sanidade.

Só tenho saído para comprar comida e pouco mais. As idas ao supermercado surpreendem-me muito, porque já implementaram a regra de só haver um número reduzido de pessoas no mesmo espaço. Na última vez, esperei mais de trinta minutos para fazer as compras, e só há 6 casos confirmados de Covid-19. O nível de compreensão destas pessoas é outro, eles sabem que se não cumprirem as regras, se não ficarem em casa, o vírus espalhar-se-á rápido, e aí será o “salve-se quem puder”. Tenho medo desse “se”.

Todos os dias, gosto de saber o estado na nação, desta e das outras. Faz parte da minha rotina ler e informa-me. Saber como está a minha família é algo prioritário também. Tenho lido um dos livros que trouxe de Portugal, e tento manter a condição física no chão da cozinha ao final do dia, com a Mariana. Ajuda a manter o equilíbrio, e a esquecer.

Muitas vezes vou para o terraço da casa (e que sorte ter um terraço!), e fico a olhar a rua, que até há dias estava cheia de gente. Agora passa um carro de vez em quando, e uma carrinha com megafones a dar informação à população, em crioulo. Faz-me lembrar a minha infância, quando era comum este tipo de situação, e rio-me com esperança que isto passe de leve aqui. Estas pessoas não merecem mais do que já enfrentam. Para além da seca extrema, falta de água potável, o vento seco do deserto que afeta a áfrica subsariana, se este inimigo invisível pega… Não sei o que será desta boa gente. Torço muito por eles.

A situação aqui é relativamente calma. Afinal só há 6 casos confirmados ao dia de hoje. Mas as medidas que se tomaram deixam muito aquém quaisquer outras que já foram tomadas noutros países. O Governo sabe que tudo isto não pode passar de uns meros casos, e é absolutamente gratificante ver que foi feito algo a tempo. Esperamos nós. Estamos em estado de emergência, os restaurantes e espaços noturnos fecharam há mais de uma semana, e as praias estão interditas a nível nacional, entre outras medidas. Está tudo parado.

Trabalhar na área da sustentabilidade com toda esta situação é paradoxal. A área exige que contacte com outras pessoas, que veja outras realidades, que tenha acesso a informação que não “vem nos livros”, como assistir a conferências ou simplesmente lidar com colegas. É estranho não poder sair de casa e ter de tentar conciliar com os temas que me levam a estar aqui. Há outras prioridades. Por outro lado sinto que estou de certa forma a contribuir para a sustentabilidade local, porque como deixei de poder trabalhar normalmente, não uso qualquer veículo motorizado, ao qual era obrigada. Todas as minhas poucas deslocações são feitas a pé. Para além disso, tenho tentado evitar comprar produtos importados e apoiar os produtores locais. Têm crescido os serviços de entrega em casa de produtos perecíveis como vegetais, leguminosas e frutas.

É uma experiência absolutamente extraordinária pela forma bizarra como transformou o meu dia-a-dia, as minhas expectativas e a minha perspetiva do país e da cultura. É complicado não sair de manhã e ver a confusão matinal da cidade. É irónico termos de nos distanciar dos nossos únicos amigos. Afinal chegámos há tão pouco tempo…

Participar na edição 24 do INOV Contacto em 2020 não pode ser equiparada a qualquer outra edição. Não tenho dúvidas. Resta-me esperar, cumprir a minha parte e respirar um pouco dos 30ºC que estão lá fora, com esperança que daqui a uns tempos possa voltar a mergulhar e deixar-me ir na alegria das pessoas daqui, que aconteça o que acontecer não mudam o seu sorriso.