Descarbonização profunda: pistas para um desafio a Portugal II

Quais então as questões que deveremos colocar no âmbito da descarbonização profunda em Portugal? Se quiséssemos encetar este caminho, por onde começaríamos?

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Variação da potência instalada em diferentes energias

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Variação da potência instalada em energias renováveis

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Fonte das imagens: APREN

Talvez possamos começar por uma das áreas onde tem sido registado um maior progresso em Portugal. Quem acompanhe há algumas décadas a evolução do sector eléctrico no nosso país, não pode negar a evolução extraordinária das energias renováveis, em particular da energia eólica. É interessante relembrar que essa evolução não seria óbvia mesmo há quinze anos atrás. Pessoalmente lembro uma intervenção, nos idos de 1998, de alguém com responsabilidade numa das empresas eléctricas em Portugal assegurar que nunca seria possível ter mais de 30% de produção intermitente na rede eléctrica nacional. Hoje, a produção eólica rotineiramente produz mais de 50% da produção e do consumo eléctrico nacional. Dito isto, é necessário reafirmar que essa evolução resulta de muita intervenção, seja ao nível da gestão da rede, seja ao nível do apoio à iniciativa privada. Contudo, mesmo com os ganhos já obtidos e que levaram Portugal a ser já reconhecido internacionalmente, há ainda muito a fazer para conseguir a descarbonização da matriz energética no nosso país – a redução a zero das emissões ligadas ao consumo de energia em Portugal. Em primeiro lugar, reduzindo consumos energéticos. O melhor watt é aquele que não é produzido. Muito tem que ser feito em Portugal para aumentar a eficiência antes de mais dos nossos processos produtivos, apesar de, também aí, muito ter sido alcançado nos últimos anos, mesmo em anos de crise. Em segundo lugar, temos que proceder em simultâneo ao aumento da incorporação das energias renováveis nos nossos consumos eléctricos. Esse processo ocorrerá por duas vias paralelas: pelo aumento mais que provável da auto produção, mesmo no sector doméstico, onde é já visível o impacte em alguns países e provavelmente a curto prazo em Portugal, da descida de custos da energia fotovoltaica (“off grid); e pela incorporação de mais energia renovável na rede eléctrica (“on grid”) com cada vez mais energias custo-eficazes a serem incorporadas (eólica, fotovoltaica concentrada, hídrica). É possível conceber então Portugal com eletricidade totalmente renovável e carbono-neutra? Sem dúvida. A única questão que se coloca, e é uma questão de peso, é o dos entraves que o atual sistema poderá ainda colocar a essa transição energética em curso. Segundo a APREN, tal transição estará quase completa em 2040. Contudo, é possível ir mais depressa, parece-nos, sem que esse acelerar de passo acarrete custos acrescidos. Um quadro regulatório propício e estável, o apoio com peso e medida a tecnologias emergentes e chave (como o abastecimento de energia) e a introdução em paralelo da mobilidade eléctrica são algumas das condicionantes que deveremos colocar.

Pedro Martins Barata

CEO