Descarbonizar a Agenda 2030

Apesar do ritmo lento das ações nacionais e globais sobre alterações climáticas, a verdade é que entre o Acordo de Paris e a Agenda 2030 existem inúmeras ligações entre si. É uma agenda totalmente abrangente e o objetivo 13 que incide no combate às alterações climáticas está direta e indiretamente ligado a todos os outros 16.

Um recente artigo na Science Magazine com o título “A roadmap for rapid de-carbonization” lança um roteiro com vários estágios de desenvolvimento para atingir o objetivo de redução de emissões de carbono e evitar o limite de 2 graus Celsius, a saber:

2017-2020: Estabelecimento do quadro político

Os autores do roteiro da descarbonização descrevem um período de 2017-2020 para definição das políticas que possam garantir que as reduções nas emissões de carbono começam no final do período. Além disso, sugerem que “todas as cidades e grandes corporações do mundo industrializado devem ter estratégias de descarbonização”.

Este estágio exigirá uma enorme e extraordinária “vontade política” para alcançá-lo e o envolvimento de todos os stakeholders em muitas nações, cidades e setores. Mais importante ainda, como e quem decide essa combinação de políticas determinará os padrões de desenvolvimento, o ritmo, o espaço e a estrutura de nosso futuro descarbonizado. É um passo crítico no trabalho que deve ser inclusivo de múltiplas vozes e perspectivas.

 2020-2030: Tempo para mostrar e provar

O período compreendido entre 2020-2030 é a fase central de implementação da estratégia de descarbonização (e simultaneamente o período final de 10 anos da Agenda 2030 ). Nesse período, o roteiro sugere que o carvão estará prestes a sair do cenário global, e o preço do carbono deve aumentar para cobrir todas as emissões de gases com efeito de estufa com um preço mínimo de US $ 50 por tonelada. Os autores observam que a melhoria da eficiência energética por si só poderia reduzir as emissões “de 40% a 50% até 2030.” Finalmente, um enorme investimento em tecnologia de transportes e eletrificação juntamente com maior eficiência na produção industrial completará os principais avanços necessários para reduzir as emissões.

2030-2040: Caminho para a Sustentabilidade

Durante esse período de 10 anos, as políticas, instituições e processos que impulsionam a transição para uma sociedade mais sustentável tornam-se mais maduras, incluindo a construção de edifícios neutros em carbono. O petróleo estará em rápido declínio como um dos principais combustíveis no mix global de energia. Esta fase é fundamental para garantir que as políticas estabelecidas no período inicial e as estratégias de implementação no primeiro período de 10 anos distribuem os benefícios e encargos desta transição de forma equitativa. Além disso, alguns objetivos da agenda 2030 vão beneficiar da melhoria da qualidade ambiental e da redução das emissões de carbono. E são esses mesmos objetivos que podem fornecer incentivos e motivações importantes para o progresso contínuo em direção à agenda climática.

2040-2050: Monitorizar, avaliar e renovar

Nesta etapa final do roteiro, as nações estão no caminho para atingir as metas climáticas e estão avaliar esses processos, com as devidas reavaliações desenvolvidas e incorporadas. Este é também o estágio em que o círculo se completa.  Voltamos ao desenvolvimento de parcerias e processos inclusivos para envolver o público e a sociedade civil na avaliação de resultados, abordando desafios e traçando novos cursos. Com base nos êxitos e aprendendo com os insucessos dos estágios anteriores, certas estratégias de mitigação serão abandonadas e outras refinadas e amplificadas. Os principais países europeus aproximam-se de carbono zero no início da década de 2040. As dinâmicas de mercado impulsionam a América do Norte e do Sul e a maior parte da Ásia e África para este objetivo até ao final da década. Em 2050, o mundo terá alcançado Zero de emissões de CO2, com uma economia global alimentada por energia livre de carbono e pela agricultura sustentável.

Nenhum roteiro pode ser absolutamente preciso na sua descrição sendo esta uma questão tão complexa, mas isto torna ainda mais importante que o maior número possível de pessoas se dedique a pensar nas estratégias apropriadas e em roteiros que possam ser implementados com elevadas taxas de sucesso.

O desenvolvimento sustentável não é um subproduto da ação climática. É o seu princípio organizador. A integração da Agenda 2030 e o Acordo de Paris fornecem-nos o modelo sobre a forma como devemos avançar e a urgência em dar vários passos no caminho para emissões zero em 2050.

Maria João Ramos

 

Fontes:

http://science.sciencemag.org/content/sci/355/6331/1269.full.pdf

https://www.nrdc.org/experts/khalil-shahyd/sustainable-development-critical-climate-action