“Laudato si” (Pedro Martins Barata)

O principal acontecimento desta semana na política climática internacional vem não de mais uma cimeira ou sessão negocial entre Estados, mas chega-nos pela mão do Papa Francisco: a Carta Encíclica “Laudato Si”, centrada na relação entre homem e natureza e alertando para a precariedade dessa relação.

Já outros (veja-se o blog da “Quercus”, climaticas.blog.sapo.pt) enfatizaram a demonstração do profundo conhecimento científico que o Papa demonstra, traduzindo em palavras simples mas não simplistas a complexidade das causas e efeitos das alterações climáticas e da degradação ambiental. É sem dúvida interessante ver um texto de carácter religioso com a profundidade científica que este revela, mas o Papa não é apenas um mero divulgador do consenso científico de um Painel Intergovernamental – embora mesmo esse papel seja só por si relevante.

A relevância maior da Encíclica consiste em lançar um apelo a uma diferente relação do Homem com a Natureza e com o Planeta, e em recolocar essa relação e o equilíbrio que a deve caracterizar no centro da responsabilidade do Homem. Três mensagens sobressaem. Em primeiro lugar – a universalidade da mensagem para lá dos fiéis católicos. Contrariamente a outras Encíclicas, esta não é apenas uma carta aos fiéis, mas tem como público-alvo todos os habitantes do planeta. O Papa começa aliás por revelar esse espírito ecuménico ao citar a mensagem do Patriarca Ecuménico Bartolomeu de que “todos, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos, somos chamados a reconhecer a nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração e destruição do ambiente”.

Em segundo lugar – a recentragem do desafio ecológico na dimensão moral, seja através da recusa de um antropocentrismo que vê a Natureza apenas como prestadora de serviços, seja através da enfatização das dimensões de justiça social que estão sempre presentes nos conflitos ecológicos. À escala planetária, e perante o conflito ecológico que são as alterações climáticas, o Papa não mede as palavras quando acentua a responsabilidade dos países desenvolvidos e daqueles que exploram a maioria dos recursos mundiais em detrimento de uma exploração equitativa. Francisco coloca a Igreja Católica claramente do lado dos que defendem os direitos dos mais pobres à justa repartição dos bens naturais, e contra uma conceção estreita desses direitos. O direito à água, por exemplo, é claramente enunciado como implicando a recusa de esquemas de mercantilização ou apropriação exclusiva de um bem que é comum.

Por último, o Papa Francisco alerta-nos para os limites físicos à nossa capacidade de apropriação da Natureza e para o reducionismo do pensamento tecnocrático, que nos leva a ignorar que as opções tecnológicas, longe de serem puramente instrumentais, são na realidade “opções sobre o tipo de vida social que se pretende desenvolver”.

No ano em que a comunidade internacional mais uma vez pretende chegar a um consenso sobre metas de redução, a Encíclica toma uma importância especial na medida em que sugere pistas de resolução deste que é provavelmente o maior desafio presente da Humanidade: maior ambição e responsabilização por parte dos principais responsáveis pelas alterações climáticas, respeito pelas diferenças e contextos nacionais e locais e sobretudo, a recondução das nossas sociedades a um estilo de vida sustentável, menos materialista.

Pedro Martins Barata (CEO)