Novos Líderes Precisam-se (Susana Carvalho, CEO da JWT Lisboa)

Londres, 29 de Julho, 17:30, instalações do LinkedIn. Estou prestes a participar numa sessão de 3 horas sob o tema Innovation in business, a convite da MBA Arena* juntamente com Stephen Pain, Global VP Sustainable Business & Communications da Unilever e Carmel McQuaid, Head of Sustainable Business da M&S. Na sala irão estar presentes cerca de 50 estudantes de MBA de todo o mundo, com partes transmitidas em directo, incluindo a entrada de perguntas, em que as mais votadas ao longo de duas horas serão colocadas aos oradores. A moderação do debate é feita por Sandy Khan, fundadora da empresa, e Harry Morrison, Director Sustainability Services da Accenture. Haverá uma intervenção individual gravada em separado para algumas questões que necessitam maior profundidade.

Feitas as apresentações, os moderadores estrategicamente colocados nas pontas da “arena”, iniciam as perguntas que se sucedem a um ritmo acelerado e orquestrado, com tempos mais ou menos impostos de 30” a 3’, iguais para todos, alternando o teor pessoal e profissional e a ordem de entrada.

Partilho aqui o essencial da minha intervenção às três questões de fundo:

Evolução das estratégias de negócio na sustentabilidade para os próximos 5 anos

Na última década e meia assistimos à erosão de muitas empresas (algumas que desapareceram mesmo), nomeadamente nas indústrias da música, vídeo, entretenimento, fotografia, agências de viagens ou comunicação social. Encontramos hoje marcas com um enorme sucesso e que se massificaram, que surgem de novos modelos de negócio sem intermediação, colaborativos, seja por necessidade, seja porque são inteligentes e úteis. Da Amazon ao OLX, ao Instagram, ao Bla Bla car, à Uber, à Airbnb.

Em paralelo, muitas das empresas tradicionais com marcas icónicas conseguiram adaptar-se e manter-se relevantes. Mantendo o seu core business desde há 20, 60, 100 anos, estas começam a redesenhar os seus produtos e serviços, a mudar a fonte e o tipo de matérias- primas, a criar linhas especiais no seu portfolio, a combater o desperdício, a abraçar boas práticas top down com os seus empregados e em toda a cadeia de valor, dando o exemplo, provando e demonstrando, iniciando uma nova conversa com todos os seus stakeholders.

A imparável revolução tecnológica abanou os gigantes, permitiu o surgimento de micro empresas – algumas delas por sua vez tornaram-se gigantes -, e penso que iremos continuar a viver com esta dualidade. Vamos assistir à contínua transformação dos negócios existentes e a novos negócios com soluções cada vez mais ligadas à energia, à água, à mobilidade, à alimentação, à economia circular, à educação, ao bem- estar individual e às comunidades em geral, que irão cada vez mais concentrar-se nas cidades e megapolis, com todos os desafios que isso acarreta.

Tendências para os próximos 5 anos

A um nível macro, assistiremos à evolução do paradigma take- make- waste para borrow-usereplenish, preconizado por Bob Doppelt em 2008. Do lado das empresas – produção -, a necessidade da relevância obriga ao contínuo repensar de toda a sua cadeia de valor, incorporando valores como a ética, a confiança, o compromisso, a responsabilidade; do lado do consumidor, a emergência e afirmação do consumidor-cidadão, do consumo inteligente, do escrutínio e da escolha das marcas e empresas que melhor incorporem estes valores e atributos nos seus produtos e serviços.

A colaboração é uma tendência que veio para ficar. Realço aqui o social design, que engloba a tecnologia e as indústrias criativas, mas também as ONGs, os políticos, os visionários, os sonhadores. O social design, mais do que uma disciplina, é uma nova mentalidade, uma nova forma de estar na procura do equilíbrio de todo este ecossistema (in, Looks Good, Feels Good, Is Good – Anne Van der Zwaag, que recomendo fortemente). Na economia, todos precisamos de todos: é quase “obrigatório” juntar as diferentes competências e especialidades para se conseguir verdadeiramente inovar e mudar, mantendo a salutar concorrência e a saúde dos negócios.

Uma outra tendência que se desenha são as novas funções e role play que estão a aparecer nas empresas. Pelo menos é um sinal muito claro de dois “pesos pesados” e espero com optimismo que contamine positivamente muitas outras: a combinação da função de marketing ou de comunicação com a da sustentabilidade (exemplo da Unilever), ou ainda a atracção de especialistas em alterações climáticas para cargos globais de sustentabilidade – exemplo da Ikea, recrutando o fundador e CEO do Climate Group (já nos habituámos a ver pessoas que ganharam muito dinheiro, que se fartaram do que faziam ou que estão em fim de carreira, a abraçar cargos em ONGs, mas não tanto o movimento contrário).

Qualidades/atributos dos futuros líderes à luz das tendências no meu sector

Há atributos que me parecem transversais a todos os sectores, como a curiosidade, a coragem, a perseverança, o trabalho em equipa, a ética e a humildade; junto-lhe a paixão pela aprendizagem contínua e diversificada, a crença no ser humano, a vontade de mudar o mundo. Mas para que consigamos a tão necessária mudança, a educação tem que evoluir para se constituir como verdadeiro catalisador. É fundamental que se coloquem mais temas globais na agenda e mais disciplinas juntas (e sobretudo, combinar as sociais com as ditas exactas). Desde logo na escola, mas sem dúvida na universidade, sendo que nos MBA há uma oportunidade de ouro. Já há exemplos de cursos que incluem a ciência política, a filosofia e a economia, mas também seria muito interessante juntar a engenharia, a biomimética e a antropologia, ou a agronomia, o nutricionismo e o marketing, ou a tecnologia, a biologia e o design, ou as alterações climáticas, psicologia e a publicidade, para só citar alguns. Esta convergência é tão necessária na academia como nas empresas, entre ambas, em cada país e entre as geografias.

 

*MBA Arena é uma consultora focada no recrutamento de estudantes de MBA, fazendo a ponte entre a academia e as empresas na orientação de aquisição de talento.

Susana Carvalho

CEO da JWT Lisboa

 

Fonte da fotografia:https://www.facebook.com/jwtlisbon/photos/a.108146503322.94229.104281678322/10153238568003323/?type=1&theater