O ambiente tem um dia porquê? (Gonçalo Cavalheiro)

O ambiente tem um dia porquê? Que raio de espécie nos tornámos, que precisamos de um dia para celebrar a proteção daquilo que nos é mais importante: o ar que respiramos, a água que bebemos, os alimentos que ingerimos?

Somos realmente uma espécie esquisita. Todas as outras se regem e se submetem às leis da natureza e por isso, se nós não as perturbarmos, estão em equilíbrio, evoluem e, como tal, melhoram.

Nós não… desde que a humanidade é humanidade temos fundamentalmente dado muito má utilização à única coisa que nos distingue de todos os outros: a racionalidade.

E não é de agora, do século XXI, nem sequer da revolução industrial. É de sempre. Onde há pessoas, existe competição desenfreada por recursos e, tipicamente a sua depleção.

Esta nossa característica gregária e sedentária, faz com que nos tenhamos vindo a acumular, literalmente, em espaços exíguos que hoje chamamos de cidades, esgotando todos os seus recursos, colmatando a sua falta importando-os.

Esses recursos que importamos, a água, os alimentos, estão longe. Não os vemos, não sabemos o que custam produzir, proteger. E por isso não lhes damos importância. Desperdiçamo-los. Como se fossem baratos. Como se não tivessem outro valor que não o de servir as pessoas. A água tem muito mais valor para além de saciar a sede, ou regar o jardim, ou regar a horta, ou lavar o carro e a estrada ou de servir de meio de transporte dos nossos dejetos até ao mar… A água tem o seu próprio ciclo, a sua própria vida, que tinha o seu equilíbrio até que nós começamos a interferir nele.

O mesmo se passa com o carbono, aquela forma espetacular que a natureza arranjou para transformar a energia do sol em tudo o que existe, em particular em tudo o que comemos… Mas claro… a humanidade tinha que estragar tudo e interferir violentamente naquele que é o sistema mais caótico da Terra: o sistema climático. É que estamos mesmo a brincar com o desconhecido. Os cientistas bem tentam prever os efeitos da nossa intervenção, da emissão desmesurada de gases com efeito de estufa, no sistema climático. Mas ele é caótico e portanto, se calhar não sabemos, como se costuma dizer, nem da missa a metade!

É caso para dizer, estamos a pedi-las. Mas não estamos nem aí. As pessoas só agora começam a conhecer esperanças de vidas que lhes permitem olhar para futuros mais ou menos longínquos. Mas essa ideia do longo prazo, do longínquo, da convivência simultânea de três, quatro, ou cinco gerações é demasiado recente para permitir que, enquanto um todo, as pessoas consigam pensar para além do seu tempo, ou até que consigam pensar em si, num tempo que dificilmente conseguem conceber.

E é por isso que continuamos a viver hoje como se amanhã não existisse. E isso até parece uma boa filosofia de vida quando aplicada a cada pessoa. Mas quando a aplicamos à humanidade, o resultado está à vista. Faz-me lembrar um daqueles cartoons que circula de vez em quando nas redes sociais que retrata uma ida do Planeta Terra ao médico e este lhe dá a notícia mais temida: “lamento informá-la D. Terra, mas tem uma infeção de humanos.” É, tornamo-nos num vírus letal para o único sitio em todo o universo onde temos condições para viver. Que raio de espécie nos tornámos.

Gonçalo Cavalheiro, partner da CAOS