O G7 aponta o caminho (Pedro Martins Barata)

Ao longo dos anos, a negociação de clima ficou sempre refém de uma discussão muito vincada pela responsabilização mútua entre países desenvolvidos e emergentes, num reflexo direto das tensões entre estes dois grupos de países a um nível mais lato de disputa pela governação mundial.

Contudo, esta dicotomia países desenvolvidos – em desenvolvimento, expressa sempre em termos da chamada “responsabilidade histórica” conflitua cada vez mais com a realidade fora das salas de negociação. No mundo real, não é verdade que a responsabilidade seja apenas assumida pelas potências históricas – União Europeia, Estados Unidos. Hoje a ação climática desenrola-se em todo o lado: a China antecipou para o próximo ano a criação de um sistema federal de comércio de emissões para cobrir todo o seu território, a Coreia do Sul iniciou o seu próprio sistema no início deste ano, enquanto México, Chile e África do Sul ensaiam sistemas mistos de taxa e créditos de carbono. A inovação em política climática vem hoje de onde menos se espera: algumas das melhores ideias vêm agora de sistemas de incentivos a renováveis em países como o Chile. E mais perto de nós, o ano passado a Bulgária foi o país que instalou mais capacidade em produção eólica.

Sendo assim, não se espera de um anúncio isolado pelos líderes das sete principais economias industrializadas “velhas” o impacte político e económico que se poderia esperar há vinte anos, no mundo unipolar pós-queda do Muro de Berlim. Mesmo assim, há um potencial simbólico da mensagem da última cimeira dos G7. Os líderes aceitam inquestionavelmente a lógica de que evitar danos incalculáveis (a palavra parece especialmente apta neste contexto) dos impactes das alterações climáticas implicará uma transformação radical dos sistemas mundiais de produção de energia, com vista à sua total descarbonização. Sejamos claros: tal conclusão tem por si só diversas implicações subsequentes: a mais importante sem dúvida é que um mundo emissões zero em 2100 implica que regiões mais avançadas terão de se descarbonizar muito antes disso: é nesse contexto que deve ler-se o compromisso europeu de 80-95% de redução em 2050. A segunda implicação é que as tecnologias de produção de carvão sem captura  e sequestro de carbono devem hoje ser banidas dos planos de investimento das empresas elétricas. Dado o atual custo das tecnologias CCS e a dificuldade de cumprir com critérios estritos de sequestro geológico, é impossível pensar a prazo a construção de novas centrais ou mesmo a manutenção do atual parque de instalações a carvão. Nada de novo aqui: a China já está a fechar as suas centrais mais ineficientes e antigas e os Estados Unidos viram o número de centrais a carvão a diminuir severamente nos últimos anos (por via do aumento do gás de xisto). A terceira implicação é que, dados os custos de redução ainda relativamente altos em alguns sectores de atividade industrial, muito provavelmente teremos de descarbonizar a produção de eletricidade ainda antes de descarbonizar o sector da mobilidade, pelo que a prossecução de um objetivo de quase descarbonização das nossas redes eléctricas deve ser pensado como objectivo de médio prazo – horizonte 2030.

É neste quadro global que fazem sentido as metas apresentadas agora no Plano Nacional de Alterações Climáticas. Se alguma coisa, elas pecam por ser pouco ambiciosas.

Pedro Martins Barata – CEO

Ler declarações de Pedro Martins Barata no jornal Público:  G7 concorda em “descarbonizar a economia” até 2100

Fonte da foto: Público