O maior desafio do século? (Francisco Ferreira, Presidente da Associação ZERO, professor universitário)

Como gostaríamos que fosse o nosso mundo? Zero poluição, zero resíduos, zero desperdício, zero impactes, zero emissões, ou até talvez mais do que isso, se em muitos casos para além de atingirmos o zero de algumas variáveis pudéssemos ainda dar um contributo positivo para o sistema planetário, reduzindo os danos já provocados anteriormente. Ter uma visão zero implica necessariamente ter também um olhar cem por cento. Os cinco P’s dos objetivos de desenvolvimento sustentável apontam-nos o caminho: um mundo cem por cento dedicado à felicidade das Pessoas, vivendo com Prosperidade, onde seja possível garantir a Paz, com um respeito integral pelo Planeta, construindo-o através de múltiplas Parcerias. Esse seria certamente um mundo onde 100% da energia teria origem em fontes renováveis, onde o uso dos recursos seria 100% eficiente. Claro que esta visão nos parece utópica, inatingível, como se de uma fantasia se tratasse. Porém, ela foi a inspiração para uma nova organização não-governamental de ambiente, a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, cuja principal prioridade é consubstanciar um olhar e traçar um caminho para um futuro onde esses sejam os objetivos a atingir à escala nacional, europeia e planetária.

Com uma população crescente, onde no ano de 2010 se estimava que precisávamos de mais meio planeta, isto é, metade dos recursos que estávamos a utilizar não estavam a conseguir ser regenerados pelo planeta, é fundamental pensarmos ou insistirmos num novo paradigma para uma sociedade em crise ecológica.

2015 foi um ano de alertas e de mudança, com documentos e decisões muito relevantes para as próximas décadas, desde a encíclica do Papa Francisco em maio, a aprovação dos dezassete objetivos do desenvolvimento sustentável traçando uma agenda global para 2030 em setembro, à aprovação do Acordo de Paris em dezembro. Paris, com todas as dúvidas e incertezas, é um marco na visão de futuro para o mundo, para Europa e também para Portugal. A visão de longo prazo de, à escala do planeta, assegurar um balanço neutro entre os sumidouros e as emissões de gases resultantes das atividades humanas, irá pôr em causa todo o nosso paradigma económico e trará profundas modificações sociais e ambientais.

É inevitável começarmos desde já a pensar, muito mais seriamente, num mundo onde os combustíveis fósseis terão um peso residual, dando lugar a uma dominância quase absoluta da energia proveniente de fontes renováveis. Num quadro de sustentabilidade, é fundamental assegurar que as soluções encontradas são sustentáveis, dado que existem sempre impactes que deverão ser ponderados na escolha da forma de energia renovável preferível. Este enorme desafio que temos pela frente, e que obviamente extravasa em muito uma discussão puramente energética, toca em áreas que vão desde o desenvolvimento tecnológico, a mudança de comportamentos, os objetivos de realização individual e coletiva, o ordenamento do território à dinâmica das cidades. Assim, surge-nos a obrigação de olhar para um conjunto de planos relacionados com este objetivo, em particular documentos como o Roteiro Nacional de Baixo Carbono e o Programa Nacional para as Alterações Climáticas 2020/2030 e ver o que precisamos de rever para traçar um caminho que o mundo exige que seja mais rápido. O ensinamento das últimas décadas mostra-nos que nestas áreas, as decisões têm um impacte que apenas se torna claramente visível no sistema, passados dez ou quinze anos da decisão política.

Olhar para uma sociedade carbono zero é um enorme desafio que tem de começar já, que merece um profundo planeamento, que deve ser flexível ao longo do tempo, e que acima de tudo deve merecer um grande consenso político e institucional, para além de necessidade de uma participação empenhada de todos os setores da sociedade, alicerçada também na contribuição de diversos técnicos. Abraçar esta visão e fazer parte deste momento é um primeiro passo para todos começarmos a refletir e a concretizar um futuro mais sustentável, essencial para salvaguardarmos o planeta e termos um país mais resiliente.

Francisco Ferreira, Presidente da Associação ZERO, professor universitário