O Mundo para lá do óbvio

Começamos a parecer papagaios quando dizemos que as alterações climáticas são o maior desafio da humanidade ou que estamos perante um cenário catastrófico se a temperatura média global subir mais do que os tão falados 2Cº. Sim! E o que é que realmente estamos a fazer?

Na passada 2ª feira na conferência “ Encontro pelo Clima e Neutralidade Carbónica” no CEiiA, juntaram-se muitas pessoas que genuinamente se preocupam com esta temática e que quiseram discutir possíveis formas de cooperação para combater as alterações climáticas na região norte. Coloquei quatro perguntas à plateia. Quem é que se deslocava em veículo individual para o trabalho; quem é que usava guardanapos de pano; quem é que nos últimos 5 anos tinha realizado obras em casa para melhorar a eficiência energética; e, por último, quem é que comprava a sua mercearia a granel. Para meu espanto, a grande maioria não agia em conformidade com o desígnio a que nos propúnhamos debater durante a conferência e muito menos se pretendemos fazer alguma coisa em relação às primeiras afirmações que deixo aqui neste texto. 

Todos ouvimos as frases, todos entendemos o conceito, mas poucos ainda sentimos na pele o que elas significam. E olhos que não veem, coração que não sente. A mudança que não é óbvia, mas é tão difícil como necessária. 

É o caso da Nova Zelândia que acaba de anunciar que irá tomar as medidas necessárias para parar a extração de petróleo nos seus mares. Mas porquê? Não faz sentido. A Arábia Saudita, os Estados Unidos e até a Noruega, um dos países com maior cultura ambiental, vão continuar a fazê-lo. Porquê deitar fora estes milhares de milhões que podem ajudar a sociedade a viver melhor? Porquê tomar a opção de deixar esse dinheiro enterrado? A resposta dada pela primeira ministra foi clara: “ Porque pretendemos a mudança transformacional- caminhar para uma economia que é sustentável, inclusiva e produtiva” 

Ver para lá do óbvio, antecipar as necessidades futuras, foi durante muito tempo reservado aos génios. Quando todos achavam que o movimento se podia resumir com três leis, alguém sentiu que era preciso mais. Que o óbvio era agora suficiente, mas que nos limitava nas nossas opções futuras. Tudo é realmente relativo. Depende da nossa visão. Depende se nos limitamos a olhar para os nossos pés ou se queremos olhar para lá do horizonte. 

Temos duas opções que podemos abordar perante a inevitabilidade das afirmações do primeiro parágrafo. Posso-me adaptar, mudar, fazer o caminho de uma mudança progressiva, analisar as minhas decisões a 30 ou 40 anos em vez de olhar para o impacto amanhã, ou, mais tarde ou mais cedo, a inevitabilidade do óbvio vai-nos entrar casa adentro, seja com uma catástrofe natural, seja com uma progressividade de eventos naturais como secas ou chuvas fortes que irão fazer com que a humanidade entre em “modo guerra” e nos faça mobilizar para a nova realidade em que os recursos naturais são bens partilhados por todos. E é indiferente se estamos na Nova Zelândia ou em Portugal porque as nossas ações são globais. O CO2 do meu veículo individual em Lisboa estará certamente a contribuir para o progressivo desaparecimento de algumas das ilhas da Nova Zelândia. 

Agora, os futuros de Portugal e da Nova Zelândia parecem estar ligados. Ambos os governos afirmam que serão neutros em emissões de carbono até 2050. O que é que isso significa? Não sei bem… ainda não o sinto na pele, mas algo me diz que a minha CB 1100 vai ter que ser substituída nos próximos tempos. 

Luís Dominguez da Costa