Pagar danos causados pelas alterações climáticas é assunto difícil, diz especialista

Lisboa, 15 dez – O consultor da União Europeia para alterações climáticas defendeu hoje que um dos assuntos mais difíceis na negociação mundial refere-se à intenção de alguns países de responsabilizarem as nações desenvolvidas pelos danos sofridos devido à mudança do clima.

“Uma das questões mais críticas é que, enquanto estamos focados num protocolo, um texto legal, para Paris, para reduzir emissões, há um conjunto de países que tem dado um enfoque muito maior à adaptação e ainda mais ao tema perdas e danos”, disse à agência Lusa Pedro Martins Barata.

Trata-se, “de certa forma, de fazer pagar os países que emitem [gases com efeito de estufa], e que emitiram historicamente, pelos danos que alguns países em particular vão sofrer com as alterações climáticas”, explicou.

A conferência das Nações Unidas para as alterações climáticas, que reuniu responsáveis políticos de mais de 190 países, duas semanas em Lima, no Perú, terminou já no domingo, quando estava previsto acabar na sexta-feira, e preparou o texto de acordo para redução das emissões nos próximos anos, a negociar até dezembro, quando será assinado em Paris.

Um dos pontos que levou ao prolongamento da cimeira foi precisamente a falta de consenso no que respeita à adaptação às mudanças do clima, com os países mais afetados pelos fenómenos extremos, como secas ou cheias, a pretenderem que aqueles que conseguiram desenvolver-se através das emissões de gases com efeito de estufa, nomeadamente com a industrialização, paguem os danos resultantes das alterações climáticas.

“Enquanto uma boa parte da negociação está focada em reduzir as emissões o mais depressa possível, para termos menos necessidade de adaptar, há um outro conjunto de partes, que compreensivelmente, dizem que é altura de começarmos a pensar que há impactes que são irreversíveis, alguns são catastróficos a nível de pequenos países, e temos de lidar com esses problemas”, defendeu o especialista.

“Se esta dinâmica continuar até Paris, vamos ter problemas”, segundo as previsões do especialista que participou nas negociações, em Lima.

Para Pedro Martins Barata, a questão de perdas e danos “é complicada e pode pôr em perigo a negociação global por uma coisa que, sendo um desejo respeitável, é muito difícil para os países desenvolvimento, como a União Europeia, aceitarem de uma forma ilimitada, a responsabilidade histórica de compensar e em que moldes todo o mundo pelas alterações climáticas”.

Um dos principais pontos positivos da 20.ª conferência das partes (COP20) da ONU, “é ter havido um acordo, haver uma decisão que impele as partes, os países a apresentarem os seus compromissos aquilo que querem fazer como parte do novo regime pós clima, em termos de metas, a ser apresentados até março do próximo ano”.

Por outro lado, igualmente positivo é a inclusão na pré proposta de acordo de “uma novidade em termos de clima, que é uma meta de longo prazo para 2050 que se refere a emissões zero”, frisou o consultor da UE.

“É interessante que, pela primeira vez, há uma meta, muito ambiciosa” que significa que cada emissão para a atmosfera seria capturada através do aumento do sequestro de carbono, nomeadamente através das florestas, e teria de haver a descarbonização da economia, o que “seria possível, mas não é provável”, defendeu.