Trump, Brexit, e o mundo a mudar

E já está: Trump assinou uma decisão executiva que pretende reverter a política da Administração Obama de alterações climáticas. O conjunto de decisões tomadas ontem (e que no entanto vão ser quase inteiramente contestadas nos tribunais) dizem respeito aos novos mandatos de emissão para novas instalações no sector elétrico, que efetivamente impediam a construção de novas centrais a carvão que não tivessem a possibilidade de capturar CO2 diretamente (uma tecnologia ainda algo  experimental) ou à introdução de novos critérios para aprovação de projectos ao nível federal que contemplem o custo social do carbono, assim como novos limites de emissão para as viaturas americanas. Os mineiros, representantes dos quais foram convidados a assistir nas instalações da Administração Ambiental norte-americana, rejubilaram.

No mesmo dia, do outro lado do Atlântico, outro personagem político empunhou também a sua caneta para decretar o início do processo negocial sobre a saída da união Europeia, accionando o agora famoso Artigo 50 do Tratado de Lisboa. Ao fazê-lo, o Reino Unido coloca também um travão efetivo à sua cooperação a nível europeu no dossier climático, apesar de várias instâncias britânicas asseverarem querer continuar a fazer parte da política climática europeia. Os setores mais progressistas estão claramente decepcionados com a resposta europeia até agora bastante intransigente e replicando as palavras da própria Tehresa May: “Brexit means Brexit”.

Quer isto dizer então que o esforço dos últimos anos em particular na construção do regime climático do Acordo de Paris é inglório? Como tenho referido, não. Por um lado, o que é assinalável pela sua ausência de todas as decisões executivas de Trump até ao momento, é a decisão sobre a permanência ou não dos Estados Unidos no âmbito do Acordo de Paris. A Administração Trump foi já avisada de que uma potencial saída do Acordo seria um monumental erro diplomático, com consequências ainda mais severas em termos diplomáticos e potencialmente económicos do que as que teve a saída do protocolo de Quioto. Por outro lado, conforme Paul Bodnar, ex-responsável da Administração Obama e um dos principais negociadores de Paris afirmou em recente artigo do Foreign Policy, o Acordo de Paris é efetivamente um acordo feito à medida dos Estados Unidos e da China. Ao sair de cena, os Estados Unidos garantiriam à China o domínio sobre as tecnologias do futuro. Quer seja no armazenamento de energia, nos veículos eléctricos ou na expansão do fotovoltaico e eólico, as duas jurisdições a dominar as tecnologias do futuro são hoje a Califórnia e a China (a Europa titubeia neste momento). Trump efetivamente fará a “China great again”.

Quanto ao Brexit, os seus reflexos sobre a política climática internacional são muito menores: o público britânico é muito mais proativo em termos de alterações climáticas que o americano. Mesmo aí, a reversão de medidas de apoio às renováveis e uma nova política de apoio ao nuclear prometem ser distrações aquilo que poderia ter sido um efetivo arranque de uma nova industrialização no berço da Era Industrial.

Em ambos os casos, contudo, as realidades económicas e tecnológicas apontam exatamente para o domínio a prazo das tendências políticas que apoiam o Acordo de Paris: a baixa dos custos tecnológicos, a emergência a praticamente cada semana de novos avanços no domínio da energia, fazem com que a imagem de Trump nas instalações da EPA rodeado de mineiros sejam particularmente tristes: em vez de se prepararem para o tsunami que já os está a varrer, e adaptarem-se a um novo mundo, aqueles mineiros confiam cegamente num conjunto de medidas que nunca os poderão ajudar. Na minha mente, passou a imagem da história do Little Dutch Boy que salvou o dique com o seu dedo. Desta vez, contudo, o dique rebenta.

Pedro Martins Barata
CEO