World Energy Outlook 2018

No passado dia 9 de maio, na sessão de apresentação do World Energy Outlook 2018, o Ministro do Ambiente abriu o evento a reforçar o compromisso de Portugal para a neutralidade carbónica em 2050, fazendo referência ao Roteiro para a Neutralidade Carbónica e ao Plano Nacional Energia e Clima, com especial destaque para as principais metas deste último até 2030, como a redução das emissões de GEE entre 45% e 55%, o aumento do contributo das renováveis no consumo de eletricidade para 80% e a melhoria da eficiência energética em 35%. Salientou ainda que, tendo em conta a atual dependência energética nacional de 75%, em 2030 essa dependência irá reduzir para 65% e para 17% em 2050. Adicionalmente, enfatizou o fim das centrais de carvão até 2030 e a importância do gás natural liquefeito para aumentar a resiliência energética portuguesa. Em suma, a maior parte dos esforços deve ser feita durante a próxima década sublinhando a importância da obtenção de dados de qualidade para apoiar estes esforços, como os da Agência Internacional de Energia (AIE).

Fatih Birol, Diretor Executivo da AIE, na sua intervenção, começou por expressar o quanto estava impressionado não só com as expectativas portuguesas nesta matéria, mas também pelos esforços já realizados e congratulou Portugal por contrariar a evolução mundial ao reduzir as suas emissões de carbono a nível nacional. Destacou que a procura pelos combustíveis fósseis levou a um aumento das emissões globais de de CO2, quebrando um novo recorde mundial em 2018.

Fatih Birol deixou ainda outras mensagens:

  • Referiu que os mercados de petróleo ao serem influenciados pela geopolítica caracterizam-se pela incerteza e volatilidade. O consumo de gás natural está a aumentar e a energia solar fotovoltaica atingiu um “momentum”, enquanto que outras tecnologias e políticas de eficiência energética precisam de ser incentivadas.
  • Pela primeira vez, a população global sem acesso à eletricidade baixou para menos de um mil milhão e realçou que dois terços da população africana não tem acesso à eletricidade, num continente com tantas fontes de energia e combustíveis.
  • A procura de energia global cresceu 2,3% em 2018, a maior taxa desta década, determinada pela robustez da economia, pelas condições meteorológicas e pelos preços de energia moderados. Em primeiro lugar cresceu principalmente a procura de gás e em segundo lugar a de energias renováveis. Prevê-se que a procura de energia global cresça mais de um quarto até 2040 e que a eletricidade cresça duas vezes mais rapidamente que a procura global de energia.
  • Nos anos 2000, mais de 40% da procura global de energia esteve localizada na Europa e na América do Norte e 20% em economias em desenvolvimento na Ásia. Em 2017 a China ocupou o primeiro lugar em termos de necessidades energéticas, os EUA o segundo e a UE o terceiro. Em 2040, a UE passa para o quinto lugar e a procura energética da China sobrepõem-se a qualquer outra área geográfica. Este crescimento da procura de energia irá ocorrer principalmente nos países em desenvolvimento, sendo que a eficiência energética irá ser uma ferramenta fulcral para conter este crescimento

  • A esmagadora maioria do crescimento da oferta de energia irá ocorrer nos EUA (70%), boa parte sobre a forma de GNL. Em 2025, pela primeira vez as trocas de longa distância de gás natural de GNL irá ultrapassar as trocas por pipeline (51%). Por outro lado, a UE irá aumentar a sua importação de gás natural, por falta de produção própria, tendo Fatih Birol aconselhado que a UE investisse desde já no desenvolvimento de novas infraestruturas para satisfazer esta crescente necessidade, de forma a diversificar a origem das suas importações.
  • Fatih Birol indicou que uma das suas principais preocupações é a idade média das centrais de carvão da China (cerca de 11 anos) e o tempo necessário para que os investidores possam recuperar o dinheiro investido.

  • Enfatizou ainda a importância do papel de todas as nações no combate às alterações climáticas, apesar de existirem países com maiores emissões do que outros, pois o CO2 “não tem passaporte”. Por exemplo, África é responsável por emitir menos de 2% das emissões mundiais de CO2, mas é das localizações geográficas que mais sofrem com as alterações climáticas. Adicionalmente, uma das previsões mais relevantes que salientou foi o forte desenvolvimento da energia eólica na UE, sendo responsável por gerar cerca de um terço da eletricidade europeia em 2040.
  • Este ano o crescimento de energias renováveis estabilizou, devido em grande parte ao decréscimo de novas capacidades na China (solar) e na Europa.

Em conclusão, o rápido crescimento da eletricidade pode gerar grandes oportunidades, mas o mercado precisa de ser desenhado de forma a ser flexível, devido à intermitência das energias renováveis. Não existe uma única solução para reduzir significativamente as emissões de CO2, pois as energias renováveis, a eficiência energética, a inovação tecnológica, armazenamento, Carbon Capture, Utilization, and Storage (CCUS) e hidrogénio são todos necessários. Existem grandes expectativas para a eletricidade, mas restam dúvidas sobre a sua capacidade para satisfazer a procura global e sobre como os sistemas de energia futuros irão operar. Destacou-se a importância destas informações para o apoio à decisão.

Catarina Vieira, Consultora da Get2C na apresentação do World Energy Outlook